Novos Drives Juvenis – e a graça do talvez

Por Fábio Viviurka

Quando o assunto é juventude, todos opinam. Ouve-se desde o famoso: “na minha época era diferente”, até teorias conspiratórias ou de salvação. Uma coisa não dá para negar: o jovem é catalisador das principais mudanças do tempo. E mudanças não geram tranquilidade e sossego. Geram caos.

Essa sensação está presente desde que o direito de ser jovem foi manifestado pela primeira vez, na década de 40. A exigência era simples: ter o próprio lifestyle. Algo do tipo: não sou criança e não sou adulto. Tenho meu jeito de pensar, meu estilo. A ideia começou com os baby boomers e, até hoje, a juventude é reconhecida pelo seu poder de subversão às normas. Para ilustrar esse fato, vale acompanhar a incrível série fotográfica “das antigas” do americano Joseph Szabo.

 

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http://www.josephszabophotos.com/photos.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Baby_boomer

O que mudou de lá para cá? A busca por saídas de liberdade é permanente. Da mesma forma, a descoberta do lifestyle. No entanto, os drivers são diferentes. Nada mais é absoluto. Tudo é busca. Por que separar e encarar o mundo de forma única e dualista se eu posso integrar, expandir e criar?

 Drivers: são o conhecimento e as condições que iniciam e apoiam as atividades dos jovens. Pode incluir comportamento, força de mercado, moda e  até tendências musicais do dia. Os drivers são extremamente influenciadores da própria formação social, cultural, psicológica dos jovens. Pelos drivers identificamos a que estímulos eles são receptivos.

 

LIBERDADE OU MORTE!

Segundo a empresa brasileira BOX 1824, especialista em comportamento e tendências juvenis, são três os principais drivers que caracterizam a juventude contemporânea: hiperconexão (novo jeito de se relacionar com o mundo), não-dualismo (novo jeito de pensar o mundo) e microrrevolução (novo jeito de agir no mundo). Quem se interessar pelo assunto, pode baixar o PDF aqui e ficar atento a partir da página 168.

(link para baixar: http://pesquisa.osonhobrasileiro.com.br/indexi1.php?mod=5)

 

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Outro estudo da mesma empresa, em parceria com a americana K-hole, fala sobre a relação juventude e liberdade. De lá, esse fragmento chama atenção:

“Juventude não é liberdade em um sentido politico. É uma emancipação do tédio, do previsível, da tradição. É atingir um potencial máximo: a habilidade de ser a pessoa que você quer ser. Trata-se da liberdade de escolher como se relacionar; de experimentar coisas novas; de cometer erros. A juventude entende que toda liberdade tem limites e que ser adaptável é a única forma de ser livre”.

Diante do cenário, acrescentamos a liberdade como driver prévio e fundamental para a tentativa de compreensão dos jovens contemporâneos. Na interpretação dos jovens e na sua própria estrutura cognitiva, o conhecimento e a vida são elásticos, maleáveis, adaptáveis. A liberdade não pode estar no pensamento como afirmava Descartes. Não pode ser direito exclusivo dos mais experientes, como dizia Aristóteles. Ela só tem sentido quando pode ser expressa no cotidiano, sem pressão externa ou interna. É deslizar no espaço liso em busca de alegria, realização, felicidade, leveza.

O conceito é proposto por Deleuze e utilizado por Almeida e Eugênio no livro “Culturas Juvenis: novos mapas do afeto”:

“(…) é um espaço aberto, no qual o acaso e o imprevisível são dimensões privilegiadas e no qual, portanto, a criação e a performance são não apenas possíveis, mas necessárias. A própria superfície modula-se a partir das trajetórias, fazendo com que mudanças de direção transformem o próprio espaço, como é o caso dos nômades” (ALMEIDA E EUGÊNIO, 2006, p.128).

Turning points em série são permitidos. A vida pode ter roteiro, mas ele não é definido. A cada clique do mouse, movimento touch, leitura realizada, sensibilização social, experiência humana, empatia ou “acaso”, celebra-se o fascínio pela novidade. Aprende-se sempre em fast forward (O famoso “FF” dos rádios antigos). Ser livre passa a ser condição de possibilidade para a criação de novos pontos velozes de virada, que culminam em transformações relevantes (de fora para dentro e de dentro para fora). Aumenta a exigência para que os “adultos” se abram a novos portfólios de saberes.  Afinal, a preocupação em definir “quem é o jovem” é dos adultos – geralmente a partir das próprias expectativas “adultizadas”.

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SEM VERGONHA DE SER “FOREVER BETA”

Forever beta: em construção

Se os jovens pudessem carregar uma placa pendurada em seu pescoço, seria “se aproxime, mas com cuidado! Ser humano em construção”. Eis aqui a presença de outro driver: a incompletude. É cool ser nômade e admitir que faltam peças para preencher vazios. Não há problema nisso.

Com sua realização pessoal em jogo, os jovens assumem deliberadamente ser forever beta. O trânsito por novas e diferentes tendências, inibe o medo de arriscar e ser considerado inconsistente ou contraditório. É óbvio que há crises, já que as mesmas são intrínsecas à condição juvenil. No entanto, tudo se torna “possibilidade de”. Não importa se isso causa ansiedade crônica ou frustração. Vale aqui a máxima nietzscheana de que “é necessário um caos dentro de si para encontrar uma estrela brilhante”.

https://www.youtube.com/watch?v=HiNuv8gpfZs

Os jovens aprendem a ser resilientes, já que desilusões são inevitáveis. Mesmo quando “não sei o que fazer comigo”, um olhar apurado pode indicar que podemos estar subestimando a capacidade dos jovens de escolher livremente as “âncoras para o seu self”, ou seja, o que deve e o que não deve ficar. Ou ficar só por um tempo. O self vai muito além dos retratos no facebook e instagram. É preciso errar muito para aprender a sustentar as bases do seu “eu”.

Sem compreender o contexto, atribuímos aos jovens, em pleno século XXI, definições aristotélicas, de um ser incapaz, imaturo, inconsciente, que precisa ser moldado e treinado por estruturas tradicionais a todo tempo. O método coercitivo ainda é preferido por muitos “adultos” com a vã pretensão de educar a seu modo ou da maneira que foram educados. A insensatez de não ler as entrelinhas do espírito de nosso tempo, distancia diálogos mais profundos.

Vejamos o que diz o jovem Alex Tapscott no livro: “A hora da geração digital”, ao ser questionado sobre escolhas e projeto de vida:

“Um compromisso de três anos ou mais me faria hesitar. Não quero ficar preso a algo que talvez não goste daqui a dez anos. Quero liberdade para experimentar coisas novas e diferentes. Se eu estiver gostando do que eu estou fazendo, se aquilo representar um desafio, me envolver e for divertido, então acho que assumiria um compromisso. Acho que, quando eu tiver trinta anos, vou me decidir por alguma coisa. Encaro os meus vinte anos como um período de autodescoberta e autorrealização”.

A GRAÇA DO TALVEZ

“The grace of maybe”. A primeira vez que você ler o estudo com esse título, é possível que precise de uma xícara de café para digerir o conceito. Uma não, várias. Talvez até algo alcóolico. A sensação de que a graça – no sentido mais profundo da palavra – está na incerteza e inconstância e não na certeza e constância –, pode incomodar. Seria mesmo, como diz a música, a “dúvida o preço da pureza”?

https://www.youtube.com/watch?v=OUs-0m4pTAI

Link estudo: https://medium.com/@box1824/youth-mode-d0466e1be491 )

A “graça do talvez” é um verdadeiro consolo para os inquietos, que se consideravam fora do padrão “normal” – entenda-se aqui: universitário, estagiando em uma grande empresa, com rotina totalmente definida, pensando em casar e ter filhos logo, focado em uma aposentadoria “gorda” (alguns ainda pensam assim). Quem sabe, em determinado momento, alguém pensou: e se eu estiver fora do padrão? E se eu não me encaixar? Quem definiu que precisava ser assim? Por que tudo tem que ser dualista na base do “ou isso, ou aquilo”? Por que não pode ser “e isso, e aquilo”?

Mais uma vez na história, os jovens estavam inconformados com determinadas regras e criaram as suas próprias. No seu projeto de vida, ao invés de usarem sinais matemáticos de subtração e divisão, preferiram os de soma e multiplicação. Nasceram os “talvezianos”.

Talvezianos: neologismo criado pelo autor para definir a geração que assume em sua vida a graça do talvez, ou seja, a inexistência de paradigmas e verdades absolutas. Isso não significa niilismo ou relativismo, mas a livre autorização para manter o processo constante de investigação, acrescentando saberes permanentes e impermanentes.

Segundo esses “seres”, não preciso me definir “só como um filósofo”. Eu posso ser filósofo, professor, casado, pai, esportista, líder de uma ONG, ativista, designer, cineasta, blogueiro, cozinheiro, jogador de playstation on-line e DJ nas horas vagas. A graça do talvez dá margem para o surgimento da slash generation, ou seja, pessoas que acrescentam barras e vírgulas ao final de cada conquista/aprendizado, querendo sempre mais. Pontos finais são deixados de lado. Eles paralisam. Acomodam.

Reportagem do “O Globo” sobre os slash generation
http://oglobo.globo.com/cultura/megazine/eles-fazem-de-tudo-conheca-slash-generation-3949440

Muitos antropólogos, pesquisadores, marketeiros, religiosos e empresas estão de olho no comportamento dos talvezianos. Eles estão no topo da pirâmide de consumo, possuem entre 18 e 24 anos e captam com facilidade o “espírito do tempo”. Possuem um bulshit detector refinado, ditam as tendências e despertam novos jeitos de ser. Não é a toa que as marcas estão atentas aos movimentos, permitindo até alterações profundas em sua estrutura física, comercial, publicitária etc. (mas isso fica para o próximo post).

Bulshit detector: algo como um detector de bobagens. Os jovens costumam sacar muito rápido quando os adultos estão falando besteira ou querendo ludibria-los com discursos vazios. Se no trabalho não há prazer e propósito, pede-se demissão. Se a homilia é vaga, procura-se outra Igreja ou religião. Se o discurso do professor é distante, volta-se para casa e aprende-se como autodidata na internet. As estruturas tradicionais mostram-se cada vez mais frágeis e distantes para compreender os movimentos do iô-iô e acabam “caindo” no bulshit detector.

A graça do talvez acontece na realidade, encarnada do mundo urbano. Torna as definições embaçadas e transitórias. Confunde a mente dos chamados especialistas. Como é possível misturar e aproximar rock com samba? Católico com espírita? Doce com salgado? Homem com homem? Laranja com verde-limão? De fato é um novo lifestyle. Algo está acontecendo, mesmo que não saibamos explicar direito o que é.

Os jovens estão tirando o “chão do mundo”. O humor, a escolha, a decisão, se revezam em um cubo mágico de culturas e jeitos de ser, onde as cores as vezes se encontram. No entanto, logo vem a ansiedade de desmontar e iniciar novamente o ciclo. O sucesso não está no final de um processo, mas na caminhada ao ar livre. Curtir o caminho é muito mais legal do que só imaginar o final.

 

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Fábio Viviurka20150812-tarde_CR-PUCPR_109Produtor de conteúdos e conceitos audiovisuais; filósofo e professor de filosofia; especialista em comunicação audiovisual e social media; pesquisador sobre gerações e juventude; coordenador editorial de revistas; pesquisador em filosofia; roteirista; editor; produtor de cinema institucional e independente; músico não-profissional; gestor de equipes de trabalho (Paraná, Santa Catarina e São Paulo); envolvimento na criação de projetos na linha educacional, com ênfase em tecnologia da educação; palestrante; responsável pela produção e acompanhamento de planejamentos estratégicos