Por que as perguntas são importantes?

Por André Gravatá

Minha expectativa era encontrar uma plateia formada essencialmente por jovens e adultos, mas, quando cheguei, me deparei com crianças com cerca de dez anos. Era uma palestra sobre educação, num centro cultural na periferia de São Paulo.

Antes de eu começar a falar qualquer coisa, as crianças me encharcaram com perguntas: Você escreve em dia de chuva? O que as crianças comem nas escolas que você visita? Você gosta de pizza? Você escreveu todos os livros que existem nas bibliotecas? Quando você passa muitos dias escrevendo, sobra tempo para almoçar?

As perguntas das crianças me fizeram retomar uma reflexão que já pulsa muito em mim: quantas questões interessantes – e potentes – deixamos de fazer por receio e medo? Em vários momentos me vejo fazendo “perguntas inesperadas” para alguém que acabei de conhecer – como questionar “você se sente feliz com o que você faz?” ou “quem é a pessoa mais importante na sua vida?”. E sinto que tais perguntas impregnadas de ousadia e curiosidade são essenciais para criarmos intimidade com alguém. Quanto mais perguntas relevantes são feitas a um desconhecido, mais aprendo com esse desconhecido.

Repito: Quantas perguntas potentes deixamos de fazer por causa de receio e medo? O que você mais ama? O que você mais odeia? Qual o seu maior arrependimento? Você tem tempo para brincar? Perguntas são como flechas. Chegam no outro com força. Aliás, uma parte relevante daquilo que repetimos no dia a dia são velhas respostas para perguntas que nem lembramos mais quais são ou quando foram feitas. Se refizermos algumas perguntas, quem sabe encontramos respostas inesperadas, que nos impressionem.

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Ao ressaltar que perguntas são como flechas, lembro de uma história infantil intitulada O Alvo, do autor Ilan Brenman, sobre um contador de histórias. Esse mestre contador de histórias era famoso na sua vila por contar histórias que marcavam a vida das pessoas. Todos que conversavam com ele saíam maravilhados por esse encontro. E um dia um garoto resolveu perguntar ao contador de histórias como ele conseguia compartilhar histórias tão marcantes com as pessoas. Sempre que alguém perguntava algo a esse senhor, ele respondia com uma história. Então disse ao garoto: “Vou lhe contar uma história”.

O menino ouviu a narrativa de um arqueiro que passou anos e anos treinando a arte do arco e flecha, até se tornar um especialista. Ao chegar num encontro com outros arqueiros, encontrou uma extensa parede com inúmeros alvos – e flechas cravadas bem no centro deles. O arqueiro ficou impressionado. Não acreditava que uma única pessoa havia feito aquilo. Era uma proeza. Uma multidão de flechas milimetricamente no centro dos alvos, quem realizou aquele feito? Havia um garotinho perto dos alvos e o arqueiro perguntou: “Você sabe quem lançou essas flechas?”. E o garoto disse: “Sim, fui eu”. O arqueiro não conseguia acreditar. Como assim? Aquele garotinho era o responsável por tamanha façanha? Então o menino contou como fez aquilo: “Primeiro eu jogo a flecha e depois pinto o alvo ao redor”.

Assim termina a história do arqueiro.

Voltamos para o momento em que o contador de histórias estava conversando com o primeiro garoto. E aí o contador arremata: “Primeiro eu escuto as pessoas, depois pinto uma outra história em torno do que elas me contam”. Assim termina a história do contador de histórias. Que deixa clara a importância da escuta. E para nos escutarmos mais profundamente, certas perguntas são essenciais – as perguntas têm a capacidade de nos levar a lugares imprevistos, que não costumamos visitar.

Não nos esqueçamos de explorar o mundo com perguntas. E não valem quaisquer perguntas, valem apenas aquelas que fujam do clichê, que nos provoquem desconforto, que nos tirem o chão, que nos mostrem outras perspectivas. Perguntas curiosas, como as crianças fazem, lançadas como corajosas flechas.

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André Gravatá

É jornalista e doutorando informal,  tem na educação sua maior paixão. Está envolvido no projeto Educ-Ação, que busca modelos educacionais inspiradores pelo mundo. É escritor e ativista da área da educação. Colaborador de revistas como Superinteressante e Vida Simples, organizador de eventos TEDx e pessoa apaixonada pela capacidade de aprender que cada um tem